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Homemade: 007: Dr Disney, o trailer

por Catarina d´Oliveira, em 24.06.15

Há projetos que são levados a cabo com amor. Muito amor. Mas que às vezes também se vão ficando pelo caminho...

 

Como, por falta de tempo (e se calhar de criatividade e paciência) andava a deixar o meu James Bond para trás, resolvi dar-lhe um boost com um "teaser trailer" para ver se me põe os sumos a circular.

 

A montagem está sofrível e denota uma incrível falta de material (só filmamos umas três ou quatro tardes), mas acho que cumpriu o seu dever. O Bond vai existir completo. Promise.

 

 

No intrincado enredo, uma organização criminosa tenta servir-se de brinquedos e jogos Disney para contaminar a população mundial com um vírus raro. O objetivo? Obrigar os governos do mundo a pagar largas somas pela cura/antídoto, apenas detida pela organização. O agente secreto James Bond terá de parar o terrível cabecilha Dr. Disney ao longo do mundo para restaurar a paz no mundo.

 

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(quando eu pensava que o filme estava pronto em março: LOL)

 

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Snorricam - Batman Vs Superman: o porno

por Catarina d´Oliveira, em 15.06.15

Além de um ajuntamento massivo à porta das salas de cinema e lucros astronómicos capazes de nos fazer chorar à noite agarrados à nossa almofada de penas, os blockbusters têm mais dois destinos certos: o lançamento de uma versão alternativa low-budget e série B e o lançamento de um filme erótico/pornográfico.

 

 

Com "Batman v Superman: Dawn of Justice" ao virar da esquina já no início de 2016, a Wicked Comix aproveitou o balanço e a oportunidade do confronto entre os dois maiores heróis da DC para fazer das suas. O resultado é surpreendentemente... espetacular (em várias medidas).

 

 

 

 

Segundo a sinopse oficial, "do Rei das Paródias chega o confronto pornográfico de banda desenhada do século! Axel Braun toma uma abordagem sexy a dois dos mais amados super-heróis do mundo à medida que estes se guerreiam nesta mega-produção da Wicked Comix. Harley Quinn, Catwoman, Maxima, Supergirl e uma audaciosa Wonder Woman juntam-se a um elenco extraordinário de personagens sensuais nesta paródia épica e absolutamente erótica. Dois heróis preparam-se para se levantar... de mais de uma forma!".

 

E com esta fabulosa punchline me fico acrescentando apenas que, sim... é provável que já possam "alugar" o dito cujo uma vez que foi lançado em DVD lá pelos States no passado dia 3. Have fun!

 

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Point-of-View Shot - Jurassic World (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 11.06.15

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"You just went and made a new dinosaur? Probably not a good idea..."

 

Há um lugar especial no coração de alguém que, numa insuspeita noite de verão, algures nos anos 90, se esquivava dos pais para ligar a televisão quando “Jurassic Park” era exibido pela primeira vez em canal aberto.

 

Descobriu-se a compaixão quando o Triceratopo adoeceu, a ansiedade quando uma debandada de Galimimos fugia à fome do T-Rex, o “toma lá bem feita!” quando o Dilofossauro impede Dennis de fugir do Parque com os embriões, os arrepios na espinha quando inolvidável o tema de John Williams ecoava pelo parque e a tensão pura e profunda quando aqueles dois Velociraptors encurralaram os miúdos na cozinha.

 

É pouco recomendável referir a primeira pessoa num texto que, apesar de naturalmente subjetivo, se procura fundamentalmente argumentativo e analítico. No entanto, arrisco tomar breves linhas para furar a convenção e explicar que “Jurassic Park” mudou a minha vida, porque com apenas uma mão cheia de anos de vida descobri que o milagre da sétima arte estava no seu alcance aparentemente infinito. Foi ali, com o filme de Spielberg, que o meu elo inabalável com o Cinema foi criado. E no dia em que o Parque se tornou Mundo, voltei àquela noite clandestina.

 

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A ter lugar 22 anos depois do primeiro filme – e basicamente ignorando todos os acontecimentos das sequelas – a nova aventura Jurássica regressa à Isla Nublar onde o parque de dinossauros está finalmente em funcionamento e segurança... Até deixar de estar.

 

Numa nova exposição da ignorante ambição de “brincar aos deuses”, a falta de humildade humana atinge novos máximos quando a gestão do parque resolve começar a criar dinossauros geneticamente modificados, sendo a inequívoca estrela da companhia o impressionante Indominus Rex – que é, na verdade, “A” Indominus Rex. Porque é que havemos de continuar a criar espécies “mundanas” quando podemos juntar as mais perversas combinações de DNA que o tempo tentou esquecer? Evidentemente, a imprevisibilidade de tal criação leva à sua capacidade de escapar e tornar o resto do parque numa bastante completa e apetecível versão de um buffet “coma até cair para o lado”.

 

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Apesar de não conseguir manter a aura emocional e o sentimento de assombro e fascínio do original de Steven Spielberg, Colin Trevorrow revela-se como um competente maestro do caos como gerador de ação.

 

Surgindo como a mais sólida (e melhor) das três sequelas, “Jurassic World” é especialmente bem-sucedido no estabelecimento do ritmo da ação que, quando arranca, explode numa montanha-russa de acontecimentos verdadeiramente entusiasmantes. Também o híbrido sintético no centro do terror da narrativa é simbólico - além do agente do caos, é uma metáfora representativa dos excessos gerados pelas imoderações do consumo e de quem produz entretenimento e a fome do lucro.

 

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O diálogo não é particularmente inspirado e algumas personagens tornam-se estereótipos andantes por falta de melhor caracterização (particularmente os vilões), mas à parte da eterna questão “como é que estes tipos conseguem continuar a ser autorizados e financiados para abrir estes parques?”, “Jurassic World” consegue transcender a ideia básica de bestas que perseguem humanos em fuga e é estruturalmente bem construído, tem uma progressão dramática e de enredo relativamente convincentes e um clímax surpreendentemente satisfatório.

 

Depois de um primeiro ato gerado para fazer os queixos tombar com admiração dócil, Trevorrow transforma rapidamente esta aventura de ficção científica num elaborado exercício criativo de (re)afirmação da lei de Murphy – não só tudo o que pode correr mal vai acontecer como vai tornar-se ainda pior. Às vezes parece mesmo que Trevorrow e companhia passaram a noite anterior à escrita do argumento a encharcar-se de gomas e Coca-Cola enquanto assistiam a “Predator”, “Alien” e “The Thing” escondidos debaixo dos lençóis.

 

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E apesar de o amor e respeito do realizador pela aura de “Jurassic Park” ser bastante óbvio, é no terceiro ato, algo espalhado por todo o lado, que esta sua nostalgia acaba por levar a melhor perdendo-se em referências e anotações demasiado encantadas com a sua própria importância. Não é necessária uma análise profunda para admitir que “Jurassic World” é frequentemente frívolo e autocomplacente, mas a verdade é que, surpreendentemente, na maioria das vezes, acaba por funcionar de alguma forma.

 

Chris Pratt é um herói carismático e bem-humorado, e enviamos diretamente de Portugal o prémio de "Maior Maratonista de Saltos Altos" para Bryce Dallas Howard, mas apesar de uma sólida dupla humana, são, mais uma vez, os fantasmas da maravilha extinta os principais protagonistas.

 

A magia dos animatrónicos de Spielberg está praticamente ausente num parque onde, provavelmente, 99% dos dinossauros são inteiramente gerados por computador. E se é verdade que esta visita aos milhões de anos passados parece, em certa medida, mais plástica e processada, este tipo de animação permite outros voos, estratosféricos, pela possibilidade do imaginário do cinema. E a vocação que é aqui demonstrada pelo estado de arte tecnológico é de cortar a respiração.

 

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Num exemplo em que o todo é superior à soma das partes, “Jurassic World” é uma seta do cupido apontada ao nosso coração com síndrome de Peter Pan. Durante duas horas completas convencemo-nos de que os dinossauros estão à distância de uma viagem de barco e de que o limite da nossa imaginação é apenas o início das possibilidades de um Cinema feiticeiro na fábrica de sonhos.

 

É um blockbuster de verão à moda antiga, de coração terno e adrenalina máxima onde é o homem contra a natureza, contra a natureza (modificada). E nós, porque estamos muito mais abaixo na cadeia alimentar do que gostamos de admitir, bem podemos aplaudir, mas nunca ganhamos.

 

 

7.5/10

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Deep Focus - A Mulher enquanto heroína de ação (III)

por Catarina d´Oliveira, em 04.06.15

[artigo originalmente publicado na Magazine.HD]

 

E antes de colocar um ponto final na sequência de artigos sobre a Mulher enquanto heroína de ação, abordando o tema do Legado e da importância específica da personagem de Furiosa em "Mad Max: Fury Road", aproveito para revisitar algumas das outras grandes heroínas do Cinema de ação do séc. XXI, sem ordem específica e claro... ficarão certamente muitas outras por destacar.

 

Às mulheres guerreiras!

 

 

THE BRIDE [in “Kill Bill”, 2003/2004]

bride

 

Possivelmente, é o facto de ser uma mulher que torna a Noiva numa heroína tão interessante em “Kill Bill”. Alvejada, espancada e violada, Beatrix Kiddo acorda de um coma de quatro anos em puro estado de cólera. A sua icónica jornada de sangue, punição e vingança tornou-se objeto de culto praticamente a partir do momento de estreia.

 

 

 

HIT GIRL [in “Kick-Ass”, 2010/2013]

 

hitgirl

 

Foi criada pelo pai para ser uma vigilante da justiça ainda que mantenha as feições encantadoras da girl-next-door. Não se deixem enganar, porque a heroína de Chloe Grace Moretz que mantém uma íntima afinidade com lâminas avia mais maus da fita do que qualquer outro coprotagonista de Kick-Ass.

 

 

 

YU SHU LIEN [inCrouching Tiger, Hidden Dragon”, 2000]

 

crouching

 

A escolha de Yu Shu Lien incorre numa pequena infração na lista – em rigor, “O Tigre e o Dragão” é um filme realizado ainda no séc. XX apesar de ter sido estreado em muitos países no início do séc. XXI (ano de 2001), mas a imponência da personagem de Michelle Yeoh (a própria atriz é um ícone da ação feminina tendo feito sombra a Jet Li, Jackie Chan e ao fictício James Bond e  é demasiada para ignorar. Shu Lien é a epítome da mulher guerreira e exemplifica na perfeição o pináculo da força física e mental.

 

 

 

LARA CROFT [in “Tomb Raider”, 2001-2003]

 

croft

 

É contestável dizer que Lara Croft terá sido o mais bem conseguido veículo de cinema de ação na eclética galeria de personagens trazidas à vida por Angelina Jolie (onde se contam a mortífera Fox de “Wanted” ou a engenhosa Evelyn Salt de “Salt”), mas é indiscutível a importância que a adaptação do videojogo “Tomb Raider” teve para a reanimação da noção da mulher como estrela de ação. Numa espécie de versão feminina mais cool, atlética e sensual de Indiana Jones, Lara Croft foi um icónico farol de inspiração para toda uma geração de heroínas que surgiram posteriormente.

 

 

 

KATNISS EVERDEEN [in “Hunger Games”, 2012-2016]

 

heroínas

 

Katniss Everdeen pode não ser a heroína mais bem construída da história do cinema mas é, definitivamente, a grande estrela de ação feminina desta Era. Com apelo e engenho que desafiam as convenções, a personagem interpretada por Jennifer Lawrence começa por ser uma mulher em busca da sobrevivência para se vir a tornar um símbolo da Revolução (mesmo que contra a sua vontade). Mas são as habilidades com o arco e flecha, a inquebrável coragem e o incorruptível amor pelos seus que lhe dão entrada direta para o nosso top.

 

 

 

 

EVELYN SALT [in “Salt”, 2010]

 

salt

 

O protagonista de “Salt” foi originalmente escrito para Tom Cruise mas posteriormente alterado para garantir que seria Angelina Jolie a dar vida à então espiã em fuga. O enredo previsível torna-o um thriller relativamente banal, mas Jolie é uma força da natureza enquanto elimina eficazmente soldados dos serviços secretos aos magotes, salva os EUA da destruição e ainda tenta descobrir a verdade sobre si mesma.

 

 

 

MOON [in “Hero”, 2002]

 

hero

 

A notabilidade de Ziyi Zhang montou-se a partir de “Crouching Tiger, Hidden Dragon” onde viveu a rebelde filha de um governador rico que se treinou em artes marciais. No entanto, e porque também já falamos de Michelle Yeoh, resolvemos eleva-la por “Hero” onde interpreta a corajosa Moon, uma lutadora apaixonada, determinada e preparada a lutar até à última instância.

 

 

 

ALICE [in “Resident Evil”, 2002-2016]

 

residentevil

 

As adaptações de videojogos para o cinema não têm tido uma carreira particularmente feliz – isto se quisermos mesmo entrar na simpatia de lhe chamar “carreira”. No entanto, uma das entradas de maior sucesso do género foi inequivocamente a de “Resident Evil”, que coloca Milla Jovovich naquele que parece ser um caminho interminável de zombies para abater.

 

 

 

HERMIONE GRANGER [in “Harry Potter”, 2001-2011]

 

hermione

 

A figura central da saga “Harry Potter” bem pode ter sido permanentemente habitada pelo rapaz que sobreviveu, mas é pouco provável que o jovem feiticeiro tivesse ido além do primeiro episódio sem a preciosa ajuda de uma das suas melhores amigas: a menina-prodígio, Hermione Granger. É inteligente, capaz, audaz e, em boa verdade, mais bem equipada que o protagonista. A justiça que fazem à escrita de uma grande personagem feminina tanto nos livros como nos filmes é notável.

 

 

 

 

CHERRY DARLING [in “Planet Terror”, 2007]

 

planetterror

 

A fabulosa homenagem em forma de paródia aos filmes de terror da década de 1970 que é o double feature “Grindhouse” é uma vitrine de mulheres cheias de si, de feminilidade e sobretudo, de vontade de chegar a roupa ao pelo a quem se meter com elas. E enquanto a perseguição a Stuntman Mike é um clímax delicioso para as mulheres de “Death Proof”, era impossível manter a icónica Cherry Darling fora da nossa lista. Afinal, ninguém tem uma metralhadora como perna. Enough said.

 

 

 

SELENE [in “Underworld”, 2003-2012]

 

underworld

 

Com a família assassinada por um grupo de malvados lobisomens, é compreensível que a bela Selene – transformada em vampira pelo “padrasto” – tenha umas quantas vinganças para resolver. E numa era em que a mitologia vampiresca é tão maltratada, é revigorante ver uma saga (mesmo que bastante imperfeita) liderada por uma mulher forte com um arsenal de artilharia moderna para tentar refrescar o género.

 

 

 

ELIZABETH SHAW [in “Prometheus”, 2012]

 

prometheus

 

O legado que pretende preencher não é justo: ninguém seria capaz de “substituir” a Ellen Ripley de Sigourney Weaver em qualquer situação que fosse, no franchise “Alien”, mas sendo “Prometheus” uma besta que existe por si mesma (ainda que claramente conectada à tetralogia original), a Elizabeth Shaw de Noomi Rapace não se deixa passar vergonha – ela que já nos tinha provado de que fibra era feita como a inolvidável Lisbeth Salander na adaptação cinematográfica sueca da trilogia “Millenium”. Além de fazer parte de uma equipa de elite de exploração de um planeta longínquo, é a protagonista de uma cenas de primeiros socorros mais violentas da história do Cinema.

 

 

[artigo originalmente publicado na Magazine.HD]

 

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Mise en Scène - Macbeth & afins

por Catarina d´Oliveira, em 04.06.15

Trazer o génio de Shakespeare para o cinema nunca foi ou é fácil, mas a tarefa torna-se ainda mais complicada se falarmos da peça amaldiçoada - aquela cujo nome é "proibido" dentro de uma sala de teatro sendo a consequência de tal ato uma sequência de tragédias inimagináveis.

 

Mas o jovem Justin Kurznel é tipo para arriscar, e arriscar com estilo - Shakespeare, Fassbender e Cotillard não é para qualquer maluco. E a melhor notícia de tudo isto, é que este "Macbeth", além de já ser prezado pelas formas como se distancia de outras adaptações, teve uma excelente receção em Cannes.

 

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No enredo, Macbeth, um duque da Escócia, ouve uma profecia de um trio de bruxas que lhe diz que um dia ele se tornará o Rei da Escócia. Consumido pela ambição e levado a agir pela manipuladora esposa, Macbeth assassina o rei e fica com o trono para si.

 

O filme de Justin Kurzel chega ao Reino Unido a 2 de outubro de 2015.

 

 

*** *** ***

 

Quando "Mistress America" estreou no festival de Sundance deste ano, já a Fox Searchlight tinha visto o seu potencial à distância e adquirido os direitos de distribuição. Não é de estranhar, já que depois do tremendo sucesso crítico de "Frances Ha", Noah Baumbach e Greta Gerwig voltaram a juntar-se para uma colaboração (além de o primeiro realizar e ela protagonizar, sºao também ambos argumentistas).

 

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Tracy é uma caloira da universidade algo introvertida perdida pelas ruas de Nova Iorque que se vê, simultaneamente, sem a excitante experiência universitária ou o estilo de vida glamouroso que tinha envisionado. Mas quando é chocalhada pela rabanada de vento que é a sua futura cunhada Brooke - uma nova iorquina de gema e aventureira por natureza - é salva das suas desilusões e seduzida pelas loucuras de Brooke.

 

Infelizmente ainda sem data de estreia marcada para Portugal, o filme de Baumbach chega aos EUA a 14 de agosto.

 

 

 

*** *** ***

 

Depois de alguns anos a deixar que a Disney lhe voltasse a tomar a dianteira, a Pixar parece finalmente decidida a reclamar de volta o seu trono de rainha da animação do séc. XXI. Em 2015 não só deixa o terreno das sequelas como nos traz... dois pesos pesados. "Inside Out" estreia já este mês, e o segundo ataque chega lá mais para o final do ano, quando "The Good Dinosaur" tem chegada apontada.

 

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Como seria se o asteróide que mudou para sempre a vida na Terra, falhasse completamente o planeta e os dinossauros nunca tivessem sido extintos? A Pixar Animation Studios leva-nos numa aventura épica pelo mundo dos dinossauros onde um Apatossauro chamado Arlo faz um amigo humano improvável. Enquanto viajam através de uma paisagem misteriosa, Arlo aprende o poder de enfrentar os seus medos e descobre do que é realmente capaz.

 

Por cá, The Good Dinosaur deve estrear em novembro de 2015.

 

 

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Deep Focus - A Mulher enquanto heroína de ação (II)

por Catarina d´Oliveira, em 27.05.15

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2. FURIOSA

 

Ouvem-se cânticos de guerra pela Cidadela adentro. Os War Boys uivam de prazer em face da possibilidade da morte certa em honra da adoração cega de um líder misógino e terrorista. O deserto impenetrável que circunda este oásis de vida aparente parece uma poderosa analogia para o sexo ausente numa civilização dizimada.

 

Sob um comando autoritário e profundamente machista, as mulheres e crianças são meros elementos de exploração necessária para alimentar uma sociedade patriarcal em decadência.

 

“Quem matou o mundo?” – escreveram as últimas mulheres saudáveis. A resposta, no entanto, não é tão interessante de perseguir como a solução do problema apresentada por George Miller: voltar a colocar a Mulher, responsável por gerar vida, no centro dos comandos, em pé de igualdade com o Homem. E a líder da revolução não poderia ser uma melhor bandeira para a reivindicação de mais e melhores Mulheres no Cinema.

 

 

Exalando confiança e calma, é com passos seguros e firmes que a vemos surgir de cabeça rapada e com um braço mecânico a subir para uma máquina de combate artilhada. Senta-se aos comandos e com gordura e sujidade do motor, escurece a linha do olhar com pinturas de guerra.

 

Furiosa não é propriamente a heroína a que estamos habituados. Não é uma cara bonita com roupa de lycra a exaltar as curvas. Não é uma mulher que procura vingança por um crime hediondo. Não é resultado da incubação de uma assassina treinada.

 

Na verdade, Furiosa nasceu numa comunidade de mulheres e foi criada exclusivamente por elas. Ela existe para as mulheres e está aqui por causa delas. E tudo o que aprendeu – desde o mais inato sentido de raiva, à adquirida ferocidade – aprendeu de mulheres e/ou por ser uma mulher.

 

 

Saudável e capaz, é, no entanto, estéril, razão pela qual não foi tornada escrava sexual ou uma mera “ordenhadora” quando foi roubada e transferida para a Cidadela liderada pelo temível Immortan Joe, ainda na infância. O estatuto que adquiriu edificou-se exclusivamente a partir das suas capacidades.

 

A própria Charlize Theron admitiu que a possibilidade de vir a interpretar um daqueles suspiros vazios no universo macho de ação deixou-a assustada.

 

Lembro-me de ouvir dizer que o George Miller ia reimaginar este mundo e que ia criar uma personagem feminina que ia erguer-se ao mesmo nível que o Max. A princípio pensas sempre ‘isso é porreiro!’, mas depois vem o ceticismo. ‘Já ouvi esta história e já sei que vou ser a miúda que acaba lá atrás com o soutien push-up e o cabelo ao vento’. Já faço isto há algum tempo e tenho feito um grande esforço para me afastar desses projetos. Mas depois conheci o George, e houve algo nele em que acreditei mesmo. Acreditei que ele queria fazer algo que fosse mesmo verdadeiro. Acho que existe uma igualdade neste papel, em oposição a ser apenas uma mulher neste tipo e filmes. E acho que as mulheres estão só ansiosas por essa igualdade. Não quero ser posta num pedestal, e não quero ser nada mais do que sou. Quero ser apenas uma mulher, mas uma mulher autêntica, neste género ou em qualquer outro”.

[Charlize Theron]

 

 

Tal como Ellen Ripley e Sarah Connor antes de si, Furiosa tem algo que a diferencia das demais heroínas, e que é parte da sua receita de sucesso – basicamente, o seu heroísmo e coragem embebem-se no seu estatuto e condição de mulher, e ambos estão ligados e alimentam-se mutuamente. Simultaneamente, Furiosa é uma guerreira e uma alma em conflito, à procura de vingança. Ela não se limita a existir e é a parte mais ativa na construção de um futuro onde muito mais do que sobreviver, existe a possibilidade de viver.

 

É esta combinação de elementos que a torna um farol tão importante para a representação da imagem da Mulher no Cinema de ação do futuro e no cinema em geral – porque há uma grande relutância generalizada em explorar a ideia de uma mulher tão complexa.

 

A preponderância de Furiosa atingiu níveis estratosféricos quando se tornou uma das principais bandeiras dos Ativistas dos Direitos do Homem, que se sentiram tão ameaçados pela mensagem pró-feminina de “Fury Road” que tentaram… promover um boicote ao filme.

 

O que não deixa de constituir uma ironia quase repulsiva – um dos melhores filmes de ação dos últimos anos é demasiado “moderno” para os delegados da misoginia barata.

 

 

É interessante fazer estas entrevistas e ter pessoas que dizem ‘Oh, que mulheres fortes’. Mas não… somos apenas e só mulheres. Tivemos um realizador que percebeu que a verdade é que as mulheres são poderosas o suficiente, que não precisamos de ter poderes sobrenaturais ou de sermos capazes de fazer coisas que não conseguimos normalmente

[Charlize Theron]

 

No final de contas, não é assim tão difícil criar uma personagem feminina multidimensional e povoada por belas nuances e contradições. O que acontece é que a história e particularmente o género de Ação não têm sido bons para a Mulher, reduzindo-a muitas vezes a uma vítima incapaz ou a uma extravagante caricatura vestida com látex. Theron complementa a noção: “O problema da representação das mulheres no cinema remonta ao complexo da Madonna/p*ta”.

 

É verdade que o séc. XXI viu surgir um pequeno leque de outras ecléticas heroínas – desde a noiva de Uma Thurman em “Kill Bill”, à vencedora dos “Hunger Games” Katniss Everdeen, a Lisbeth Salander de Noomi Rapace e Rooney Mara, passando até pela secundária mas complexa Viúva Negra de Scarlett Johannsson em “The Avengers”, entre outras.

 

 

Mas é também o leque de limitações de cada uma delas, e especialmente a brava heroína de Johansson que ajuda a exaltar a importância de Furiosa para o panorama cinematográfico atual. Com a disparidade de tratamento, tanto nos filmes como restantes meios (merchandising, por exemplo), o horizonte de um filme de estúdio dedicado a uma (super-)heroína feminino parece estupidamente distante. E com esta perspetiva negra do futuro da guerreira feminina, a criação contra-corrente de Charlize Theron e George Miller (que se apaixonou tanto pela personagem que lhe escreveu uma história de origem personalizada) eleva-se ainda mais alto.

 

O tempo tratará de provar que é ela a Joana d’Arc da figura de ação feminina – uma fonte inesgotável de inspiração e poderio.

 

Furiosa é a heroína que queremos, que precisamos.

A heroína que merecemos.

 

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Deep Focus - A Mulher enquanto heroína de ação (I)

por Catarina d´Oliveira, em 26.05.15

 

mulher heroina.jpg

 

[artigo originalmente escrito para a Vogue.pt] 

 

 

1. O LEGADO

 

Quando “Mad Max: Fury Road” chegou às salas de cinema de todo o mundo, duas coisas ficaram claras: primeiro, George Miller tinha não só feito um glorioso update da saga que criou há mais de 30 anos, como concebeu um dos maiores (e melhores) filmes de ação dos nossos tempos; segundo, e possivelmente ainda mais surpreendentemente… não tinha tornado Max o seu protagonista.

 

É que, não obstante ser ele a dar o título ao filme, o corpo aos posters e a voz aos trailers, é Furiosa, a imponente Imperator de Charlize Theron, a inequívoca heroína de um filme que carrega uma poderosa mensagem, não feminista, mas pró-feminina - e sobre a influência particular da fabulosa personagem de Theron na perspetiva futura da Heroína feminina no Cinema, falarei ainda esta semana, noutro artigo.

 

 

Todavia, não é segredo para ninguém que a indústria cinematográfica continua a ser profundamente sexista, intoxicada por disparidades escandalosas que vão desde o tratamento das personagens à própria dinâmica económica e financeira da indústria.

 

Mergulhemos nos factos: dos dez atores mais bem pagos em 2014 apenas duas são mulheres – Sandra Bullock (51 milhões de dólares) e Jennifer Lawrence (34 milhões de dólares). E se Bullock foi um caso pontual e fora de série por culpa do fenómeno global que foi “Gravidade”, apenas Lawrence pode ser considerada uma presença feminina consolidada, ocupando o décimo lugar numa lista encabeçada pelo ícone de Robert Downey Jr. Que lhe rendeu uns pornográficos 75 milhões de dólares – mais do dobro de Lawrence.

 

O facto mais curioso quando resolvemos cruzar alguns dados é que, na verdade, a estrela mais rentável de 2014 foi… uma mulher – entre o terceiro capítulo da saga “Hunger Games” e o mais recente filme de “X-Men”, Lawrence foi quem mais rendeu na bilheteira em 2014, seguida de Chris Pratt e, que surpresa, outra mulher, Scarlett Johansson.

 

 

É, no entanto, virtualmente impossível fazer boas omeletes sem ovos, e as oportunidades para blockbusters ou grandes produções protagonizadas por mulheres são profundamente escassas. Mantendo-nos ainda no ano de 2014, podemos constatar que dos 10 filmes mais rentáveis do ano, apenas dois são protagonizados por mulheres – “Maleficent” com Angelina Jolie e “The Hunger Games: Mockingjay – Part 1” com Jennifer Lawrence. E esta não é, de todo, uma má proporção – basta recordar que poucos mais foram sequer produzidos nesse ano - “Divergent” e “Lucy” devem, praticamente, fechar a lista se nos cingirmos apenas a cinema sci-fi/ação.

 

Esta não é, portanto, uma indicação de que a heroína de ação é, para Hollywood ou o Cinema em geral, uma maçã podre destinada a resultados e rendimentos medíocres. Se constitui alguma conclusão é a de que a indústria que nos quer passar a imagem de cada vais mais cool e liberal continua retrógrada e obsoleta – porque chamá-la de convencional é um insulto. Quando a "convenção" é promover a disparidade e a morte das oportunidades, não pode nem deve ser invocada como tradição. Da mesma forma, exibir a mulher como uma entidade capaz de pensar, sentir e lutar não é feminismo, é igualdade.

 

 

Mas vamos às origens da Mulher como figura central de ação: as primeiras heroínas mainstream começaram a surgir ainda durante a Segunda Grande Guerra, era histórica que coincidiu com as mudanças sociais que introduziram a Mulher ao mercado de trabalho, ao voto e à possibilidade de, cada vez mais, procurar a igualdade perante o Homem.

 

Os anos 40 viram as primeiras super-heroínas surgir nas bandas-desenhadas, e a Wonder Woman foi, possivelmente, o primeiro exemplo universalmente mais notável. Apesar de ter sido um arranque necessário e esclarecido, foi aqui que começou também a ser seguida uma tendência generalizada que pareceu alimentar o ideal erróneo de que era preciso sexualizar estas guerreiras para as tornar interessantes e, quiçá até, menos ameaçadoras – é esta queda para a necessidade de decotes, roupa apertada ou ausência dela, que tem também contribuído para o atraso da emancipação da mulher como heroína pelas suas qualidades inerentes.

 

 

Nos Cinema o cenário foi ainda mais negro, e durante muitos anos o género de ação foi um autêntico buraco negro alimentado a testosterona. Os seus gloriosos anos 70 e 80 edificaram fortemente o estatuto “macho” daquele que é possivelmente o género mais sexista, dominado pelos Stallones, Van Dammes, Schwarzeneggers e Willis desta vida. E enquanto o seu legado adquiriu o justo estatuto de culto – continuando a bombear-se nas veias das reencarnações de estrelas de ação de Hoje – a heroína de ação feminina debatia-se por uma golfada de ar.

 

A resposta de uma contemporaneidade que tem vindo a tentar, em parte, combater esta disparidade pode encontrar-se na tradição dinâmica do cinema de terror – ao longo das décadas o género foi-se fortalecendo com cada vez mais protagonistas femininas, encorajando assim o público a identificar-se com “a última sobrevivente” ou a “derradeira guerreira” em face da ameaça.

 

 

O cinema de ação, em particular, tem-se tentado embutir desta realidade, ainda que de uma forma mais gradual e menos marcada – primeiro e em muitas instâncias com personagens secundárias femininas complexas e multidimensionais que fugiram ao estatuto de “donzelas em perigo”, e posteriormente, e em doses mais controladas, em protagonistas completamente estruturadas, com uma história própria e capacidades físicas, emocionais, e psicossociais até aí só atribuídas a personagens masculinos.

 

E enquanto ícones como “Barbarella” (1968) são cotados como fortes influências icónicas e primeiras manifestações do heroísmo feminino em larga escala, talvez nenhuma outra retenha o estatuto de “heroína original” numa grande produção de indústria como a inolvidável Ellen Ripley, interpretada por Sigourney Weaver na saga “Alien”.

 

 

Ripley abriu caminho a mulheres de ação intrincadas, multifacetadas, vulneráveis mas duras, humanas mas implacáveis. E parte da vitória da personagem e do próprio franchise passou por não tornar Ripley apenas uma versão feminina de um “homem rijo”, mas reconhecer-lhe e exaltar-lhe as características que são tão inerentes à condição de mulher.

 

Foi esta criação e diferenciação que, em parte, despoletou o sentido de maternidade de Sarah Connor (“Terminator 2”), o sentimento de proteção de Katniss Everdeen (“The Hunger Games”), o desejo de vingança de Bellatrix Kiddo (“Kill Bill”), a procura de redenção de Furiosa (“Mad Max”), e as jornadas de muitas outras mulheres que ainda temos por conhecer no grande ecrã.

 

 

Com um avanço lento mas que parece cada vez mais consistente, e mesmo com as ainda atuais disparidades mais várias, a figura da mulher como estrela de ação começa a surgir de uma forma sólida e cada vez mais orgânica.

 

Todavia, e em jeito de conclusão, a verdade mais absoluta sobre Hollywood ou a indústria cinematográfica em geral é que, não obstante agendas políticas, sexistas ou outras, ela responde primariamente a um instinto: replicar o que faz dinheiro. Se o público responder positivamente à estrela de ação feminina, a sua presença vai ser cada vez mais constante e robusta.

 

 

 

Pelo que esta é também, e talvez sobretudo, uma luta e um dever nossos. De mulheres e de homens que querem mais diversidade, que anseiam por mais histórias complexas, mais protagonistas heróis e anti-heróis que valem a pena.

 

Mas sobretudo de homens e mulheres que procuram um mundo onde artigos como este simplesmente não precisam de existir.

 

 

[artigo originalmente escrito para a Vogue.pt]

 

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Point-of-View Shot - Mad Max: Fury Road (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 21.05.15

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"As the world fell it was hard to know who was more crazy. Me... or everyone else"

 

Ao fim de duas horas cronometradas no que parece uma vénia à pontualidade britânica, a sala esvazia-se em câmara-lenta, com rasgos de pequenos tragos acelerados, num silêncio aparentemente letárgico que se torna quase desconfortável. É esta perceção que invariavelmente nos fica quando a ferocidade de “Mad Max: Fury Road” desliga os motores.

 

Saímos doridos da viagem que nos encheu a boca de poeira e o corpo de nódoas negras. O regresso à normalidade, e onde o futuro pertence a outros loucos, faz-se com os sentidos dormentes, mas a alma cheia de um cinema que julgávamos perdido nos tentáculos do tempo e da inovação tecnológica - porque aquilo que poderia soar a uma tentativa desesperada de fazer render uma vaca leiteira fora de prazo revela-se um choque retumbante e revigorante de originalidade demente.

 

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Perseguido pelo seu turbulento passado, Mad Rockatansky acredita que a melhor forma de sobreviver é não depender de mais ninguém para além de si próprio. Ainda assim, acaba por se juntar a um grupo de rebeldes que atravessa a Wasteland, numa máquina de guerra conduzida por uma Imperatriz de elite, Furiosa. Este bando está em fuga de uma Cidadela tiranizada por Immortan Joe, a quem algo insubstituível foi roubado. Exasperado com a sua perda, o Senhor da Guerra reúne o seu letal gang e inicia uma impiedosa perseguição aos rebeldes e a mais implacável Guerra na Estrada de sempre. E quando o sprint para o inferno começa, já não para. É há tanta, tanta loucura. Loucura pura e cristalina; alimentada por fogo, sangue e fúria.

 

As imagens sucedem-se à velocidade de uma chuva de meteoritos. Terroristas a catapultarem-se para o veículo inimigo. Crânios como figuras de adoração. Tempestades de areia que engolem tudo. Explosões espetaculares. A figura icónica de um homem sem face preso a uma parede de colunas gigantescas onde faz uma serenada à morte enquanto rasga acordes numa guitarra elétrica que cospe fogo. Os posters não estavam a mentir – o deserto, o calor, a sede, o instinto… devem ter tornado toda a gente louca.

 

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Precisamente 30 anos depois de “Mad Max 3: Thunderdome”, “Fury Road” retoma os acontecimentos num mundo rapinado pela política, poder e selvajaria do instinto. Todavia, George Miller regressou ao universo que instituiu o seu nome como referência e Mel Gibson como uma estrela com uma entidade que opera por si mesma, sem necessidade de (re)conhecimento da proeza tripartida original – e que foi, tão somente, a explosão que catapultou a New Wave do cinema australiano para o olho global.

 

Fury Road” é tão pouco tradicional como blockbuster quanto pode ser, e sobrevive num deserto de olvidáveis experiências cinematográficas à custa da sua “originalidade old school” e audácia.

 

Um dos seus menos vistosos mas mais determinantes atributos é o sentido económico refinado do argumento. A história é tremendamente simples apesar de explodir em discussões filosóficas e transbordar sentimento, encontrando beleza no grotesco e estranheza desconcertante na graça. No entanto, não cede a qualquer tentação da complicação para o esconder. O diálogo e exposição mantém-se em volumes mínimos, servindo-se do poder geralmente subestimado do storytelling visual para contar a maior parte da história e estabelecer o mood. A prova do engenho está na claridade do enredo e das motivações de cada personagem a partir da ação, mesmo inseridos numa natureza diabólica e intempestiva.

 

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Mas não é este o único aspeto que torna “Fury Road” um poderoso marchante em contracorrente – porque ao contrário dos parentes blockbusters de estúdio atuais, o filme de Miller construiu-se na base de efeitos práticos, auxiliados de forma apenas pontual pela magia dos efeitos visuais. O espetáculo, que apesar do luxuoso orçamento se sente profunda e positivamente artesanal, torna-se, desta feita, uma faceta de pasmar, com acrobacias tais que podíamos jurar estar a assistir a uma exibição do Cirque du Soleil numa competição de Monster Trucks engolida por um concerto de heavy metal.

 

Do ponto de vista temático, é nuclearmente um ensaio sobre a objetificação humana como reflexo de uma era desesperada. E enquanto é um absurdo absoluto etiqueta-lo como propaganda ultra-feminista, o filme de Miller encontra na mulhor a heroína que tão pouco conhecemos na sétima arte. Com a autora de “Os Monólogos da Vagina” como consultora, o realizador sugere que a mulher-criadora é a chave para a esperança no futuro num twist que combate “complexo macho” que afeta a esmagadora maioria do cinema de ação, em geral.

 

Miller adorna a sua sinfonia de desordem em alta potência com pinceladas de violência tresloucada; mas cada choque, cada explosão, é cerebral na medida em que constitui um elemento essencial para o puzzle completo que se constrói num filme sobre revolução e salvação, sobre a necessidade do combate ao cultivo do ódio e do terrorismo, mas também profundamente terno nos vestígios de esperança que encontra pelo caminho.

 

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O Max de Hardy é inequivocamente mais Mad que o de carismático anti-herói Gibson, poupando nas palavras mas caprichando numa performance física que facilmente poderia ter sido dolorosamente unidimensional, mas que se revela numa complexa mistura de estranheza, comportamento errático e apetência para a loucura que não esconde totalmente o íntimo vingador e justo de um homem calejado pela dor da perda e a loucura da impotência.

 

Todavia, uma das escolhas mais corajosas de Miller foi colocar Max no lugar do pendura e abrir o palco à redenção de Furiosa. Charlize Theron constrói uma das heroínas de ação mais interessantes e complexas do Cinema contemporâneo, e é ela a alma e coração magoados do filme. É através do seu percurso e dos seus triunfos e derrotas que nos investimos, e talvez não estejamos a rumar muito além da verdade se ousarmos admitir que se poderá tornar como a maior referência de ação feminina desde que Sigourney Weaver ensinou uma lição à rainha-mãe em “Aliens”.

 

Na fila secundária, vale a pena prezar a dedicação de Nicholas Hoult a uma das personagens mais complicadas e peculiares do filme, bem como do gangue de super-noivas liderado por Rosie Huntington-Whiteley.

 

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Fury Road” é um poema de Álvaro de Campos embriagado num cocktail molotov de esteroides e areia do deserto. Uma terapia de choque frenética, uma ópera furiosa de acordes surreais, um delírio febril que faz com que qualquer outro filme de ação pareça uma insossa sucessão de fotografias.

 

É o cinema de ação em estado de graça. Como já foi. Como já não é. Como deveria ser.

 

 

9.0/10

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Point-of-View Shot - Force Majeure (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 19.05.15

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"I'm a bloody victim of my own instincts!"

 

Se “Gone Girl” é o apunhalar macabro do coração da instituição do casamento, “Force Majeure” é a tempestade que o precede.

 

Ebba e Tomas decidem passar cinco dias de férias a esquiar nos Alpes franceses com os seus dois filhos, Harry e Vera. Tomas tenta dedicar mais tempo à família, já que Ebba acha que trabalha demais. Mas quando os quatro almoçam num restaurante nas montanhas, uma avalanche aproxima-se inesperadamente e ameaça soterrar o local. Um impulso instintivo ditará o futuro da dinâmica desta família.

 

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Os peões organizam-se em jogo a ritmo calmo mas seguro para aquela que tem tudo para ser uma história comum de sobrevivência, um melodrama onde o núcleo parental trabalha conjuntamente para resolver uma situação de crise.

 

Contudo, o realizador Ruben Östlund não podia estar menos interessado em oferecer-nos um produto de digestão rápida ao qual já estamos habituados. Em vez disso, um enredo de catástrofe natural é substituído por uma exposição de cataclismo humano, onde o terror não se encontra nas forças desconhecidas da natureza mas nos recantos mais sombrios dos instintos humanos.

 

O absurdo e o angustiante tomam as rédeas à medida que “Force Majeure”, um exame profundo à gestão da crise num casal com traços desconfortáveis de hilariante deboche, nos desarma e despe perante a confrontação com as consequências de uma escolha escorregadia. Não temos para onde fugir, e as questões que são colocadas na ficção, rapidamente ganham alojamento nos recantos do nosso cérebro – como reagiria? O que faria? Que tipo de pessoa sou? Um herói ou um sobrevivente?

 

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O retrato da família perfeita é rapidamente distorcido pelo fantasma da disfunção, e a queda, em câmara lenta, do castelo de cartas é absolutamente fascinante. A premissa é extraordinariamente rica em poder dramático, e Östlund explora-o com uma precisão cirúrgica. O tema do instinto de sobrevivência que vive por debaixo da capa de segurança do comportamento civilizado e politicamente (e socialmente) correto não é propriamente novo, mas o facto de ser criado e alimentado por um acontecimento tão mundano faz parte do seu fascínio.

 

Enquanto somos pontualmente assaltados pelo tempestuoso concerto de Vivaldi, a linguagem visual de Östlund diz-nos tanto como os seus diálogos, alternando entre planos magistrais do exterior nas imensas pistas de ski e segmentos apertados da família no hotel, onde todos se amontoam, mal cabendo no enquadramento.

 

Além de uma edição peculiar e do pecado da recorrência de alguma repetição, o filme tem ainda um fecho que tem sido celebremente discutido como despropositado ou estranho, alicerçando-se num bizarro acontecimento num autocarro para, quiçá, deixar no ar a possibilidade da vulnerabilidade no plano matriarcal. O final é aberto à interpretação, mas talvez também um formalismo necessário à estrutura de um filme que se edifica a partir das questões que (nos) coloca.

 

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Como um livro de conclusões por explorar, “Force Majeure” é um ensaio de traços subtis mas cortantes sobre as nossas hipocrisias, e uma obra de implicações desconfortáveis e reflexões de tirar o sono empacotada numa sátira brutal à masculinidade do séc. XXI.

 

E parece que este país não é para homenzinhos.

 

8.0/10

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Master Shot - Bootlegs, I <3 you (parte III)

por Catarina d´Oliveira, em 11.05.15

Eu acreditava piamente que tinha sido há três meses, mas foi na verdade há cerca de um ano e meio que embarquei numa jornada louca pelo universo alternativo... dos bootlegs - gravações baratas (e piratas) de filmes/séries/concertos em que um indivíduo filma o ecrã de um cinema com aquilo que parece ser uma máquina de calcular, a julgar pela qualidade dos mesmos.

 

E depois de muita resistência, hoje regresso finalmente a esse enorme reino de pérolas para recuperar mais algumas obras de arte.

 

 

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Devo ter adormecido na parte em que o Denzel Washington participou no Fast & Furious...

 

 

 

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Possivelmente, linguagem de código para "director's cut"

 

 

 

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E o Jackie Chan com barba branca e dentes podres

 

 

 

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Isto é uma passagem aleatória de 50 Shades of Grey ou assim...?

 

 

 

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Daquela vez em que o Indy teve de ajudar o Frodo a enganar o Sauron...

 

 

 

 

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Afinal o Lincoln acabou com a escravatura a tiro

 

 

 

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Demasiado bom

 

 

 

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É neste que o Leonardo leva o Óscar

 

 

 

 

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"Engaging lonely between" ... "to express himself and wanting"... say what?

 

Lord-of-rings-bootleg-dvd.jpg

A comédia romântica que conta a história de amor entre Frodo, um snowboarder cool, e um Orc... com muito amor, sexo e sonhos.

 

 

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Fácil.

 

 

 

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É (quase) compreensível

 

 

 

 

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"E depois de terminar a sinopse, pousou a garrafa de Rum completamente vazia."

 

 

 

 

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Pacina Maluca.

 

 

 

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Quase, quase...

 

 

 

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Pela primeira vez, uma criação absolutamente fiel

 

 

 

 

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Mesmo nas nalgas.

 

 

 

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 A sequela mais aguardada

 

 

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